
Por inúmeras vezes este que vos escreve foi assaltado com a expressão
"samba de raiz", geralmente dita por algum intelectual barbudinho e preocupado em esconder sua ânsia por parecer "do povo". Ponderam estes baluartes do bom samba que existe um subgênero - na opinião deles, mais importante que o próprio gênero - no qual eles transitam com
desenvoltura, citando trechos de samba de gente que morreu há séculos (quase sempre na miséria). No momento em que fazem esta citação, chegam a ter palpitações no esfíncter. Sorriem um pro outro com cumplicidade, quase chegando à troca de bolinações enquanto se
confidenciam mutuamente, com olhares de espertinhos: "Ah, isso é Geraldo Pereira...." ou "Ismael Silva, porra!".
Exemplo clássico de como esse mainstream cubano oscila em suas preferências acontece com o artista Zeca Pagodinho, que eu, Valido Platero, não escuto muito e tampouco prezo - devido a suas raízes botafoguenses. O dito Zeca já foi considerado pela "intelligentzia" como alguém a ser ouvido. Mas basta ele fazer um pouco de sucesso, tocar em rádios populares e bailes de zona Norte, que é logo empurrado para a marginalidade.
Com outros grupos e bandas, não acontece o mesmo: já de cara os intelectuais das noites da Lapa torcem o nariz para Raça Negra, Pirraça ou Grupo Raça, meio que variantes sobre o mesmo tema. Em suma, sujeitos que cresceram com babás, tentaram - sem sucesso - traçar as empregadas quando adolescentes e quando adultos maltratam as cozinheiras, chegam a ajoelhar (às vezes metaforicamente sexual) diante de negões velhos experientes e surubas só porque eles fazem versos de amor.
Diga-se: versos de amor realmente sinceros, já que são feitos para monstrengos com dentes amarelos de cigarro e copinhos de cerveja quente na mão. Não acreditem que seu Mano Paulão da Abolição ou João Sem Perna façam versos lindos para corpos como o da Liv Tyler ou da
Viviane Araujo. No ambiente fétido dos antiquários da Lapa, se forja esta estranha aliança entre os dois extremos do IPTU: o burguês que mora na Zona Sul e o niquimba fudido que vive com cirrose e mora em Pilares. É "charmosinho" para o intelectual da Zona Sul chamar esses pobres
diabos de "minha tia", ter intimidade com o morro, a favela (apesar de jamais pensarem em cogitar a possibilidade de dormir uma noite por lá), demonstrarem esse 'falso libertarismo' de araque.
Só ao mencionarem a expressão "VELHA GUARDA" os intelectuais do "samba de
raiz" ficam com os pêlos do períneo arrepiados. Agora, se esses espertíssimos "intelectuais do povo" atravessassem o Rebouças para outro motivo que não fosse tirar onda de já terem ido em
Madureira, descobririam que o povo da Zona Norte adora o Raça Negra, o Pirraça, o Raça Pura ou que quer que seja - e gostam do Zeca Pagodinho os 365 dias do ano, não apenas quando ele é "alternativo".
Os intelectuais descobririam que o subúrbio gosta desse pagode que eles
chamam de "samba de paulista".
Descobririam, irritados, que "samba de raiz" é a designação que eles
inventaram para um samba que, apesar de tradicional e de alta qualidade, hoje padece sem povo, sem budum e sem chulé.
"samba de raiz", geralmente dita por algum intelectual barbudinho e preocupado em esconder sua ânsia por parecer "do povo". Ponderam estes baluartes do bom samba que existe um subgênero - na opinião deles, mais importante que o próprio gênero - no qual eles transitam com
desenvoltura, citando trechos de samba de gente que morreu há séculos (quase sempre na miséria). No momento em que fazem esta citação, chegam a ter palpitações no esfíncter. Sorriem um pro outro com cumplicidade, quase chegando à troca de bolinações enquanto se
confidenciam mutuamente, com olhares de espertinhos: "Ah, isso é Geraldo Pereira...." ou "Ismael Silva, porra!".
Exemplo clássico de como esse mainstream cubano oscila em suas preferências acontece com o artista Zeca Pagodinho, que eu, Valido Platero, não escuto muito e tampouco prezo - devido a suas raízes botafoguenses. O dito Zeca já foi considerado pela "intelligentzia" como alguém a ser ouvido. Mas basta ele fazer um pouco de sucesso, tocar em rádios populares e bailes de zona Norte, que é logo empurrado para a marginalidade.
Com outros grupos e bandas, não acontece o mesmo: já de cara os intelectuais das noites da Lapa torcem o nariz para Raça Negra, Pirraça ou Grupo Raça, meio que variantes sobre o mesmo tema. Em suma, sujeitos que cresceram com babás, tentaram - sem sucesso - traçar as empregadas quando adolescentes e quando adultos maltratam as cozinheiras, chegam a ajoelhar (às vezes metaforicamente sexual) diante de negões velhos experientes e surubas só porque eles fazem versos de amor.
Diga-se: versos de amor realmente sinceros, já que são feitos para monstrengos com dentes amarelos de cigarro e copinhos de cerveja quente na mão. Não acreditem que seu Mano Paulão da Abolição ou João Sem Perna façam versos lindos para corpos como o da Liv Tyler ou da
Viviane Araujo. No ambiente fétido dos antiquários da Lapa, se forja esta estranha aliança entre os dois extremos do IPTU: o burguês que mora na Zona Sul e o niquimba fudido que vive com cirrose e mora em Pilares. É "charmosinho" para o intelectual da Zona Sul chamar esses pobres
diabos de "minha tia", ter intimidade com o morro, a favela (apesar de jamais pensarem em cogitar a possibilidade de dormir uma noite por lá), demonstrarem esse 'falso libertarismo' de araque.
Só ao mencionarem a expressão "VELHA GUARDA" os intelectuais do "samba de
raiz" ficam com os pêlos do períneo arrepiados. Agora, se esses espertíssimos "intelectuais do povo" atravessassem o Rebouças para outro motivo que não fosse tirar onda de já terem ido em
Madureira, descobririam que o povo da Zona Norte adora o Raça Negra, o Pirraça, o Raça Pura ou que quer que seja - e gostam do Zeca Pagodinho os 365 dias do ano, não apenas quando ele é "alternativo".
Os intelectuais descobririam que o subúrbio gosta desse pagode que eles
chamam de "samba de paulista".
Descobririam, irritados, que "samba de raiz" é a designação que eles
inventaram para um samba que, apesar de tradicional e de alta qualidade, hoje padece sem povo, sem budum e sem chulé.
Samba é samba desde os primórdios e rotular alguma coisa, faz parte da nossa sociedade, isso não vai mudar. Assim como a Zona Sul adotou o Samba e o chamou de raiz ou do que quer que seja, o subúrbio nunca o abandonou. Padece sem povo, sem budum e sem chulé em outras paragens, no subúrbio ou na favela, como queira, ele ainda tem voz.
ResponderExcluirO morro ainda clama pelo real samba, o samba da década de 20, ainda se ouvem os versos dessas clássicas canções, mas com certeza o "samba de paulista" é o mais "pop", e isso tb é verdade, apesar de ser triste fatalidade.
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